Um filme no centenário de Maria Ondina Braga

 



Quando cheguei a casa, já tarde, não consegui adormecer sem lhe escrever uma carta. Uma longa carta íntima atolada de sinceridades que nos pertencem. 
Só a nós.

Fui a Braga, à Feira do Livro, ver este documentário. E gostei tanto, mas tanto que senti necessidade de lhe contar como foi. Escrevi-lhe, só a ela, numa emoção torrente e repeti-me vezes sem conta: como gostava que estivesse ali, querida Maria Ondina Braga… talvez estivesse…estava.

Conheci Maria Ondina Braga em 1992, em Guimarães, era uma miúda, e desde esse dia trocamos cartas. E conversas ao fim da tarde. Às vezes, mais à noite. Conversas que combinávamos ao telefone. Eu marcava o 7162830 e ficávamos a conversar sobre o ofício de escrever, sobre Macau, sobre a vida, sobre todas os caminhos que abrimos naquele dia, no Círculo de Arte e Recreio, onde nos conhecemos.

Tanta coisa nova e mais antiga a adentrar o meu pensamento, depois de assistir “O que vêem os Anjos”. Um filme com argumento de José Miguel Braga e realização de Tiago Fernandes, sobre a escritora Maria Ondina Braga. Apetecia-me vê-lo de novo e ainda uma e outra vez. Sensibilidade e conhecimento. E depois, as conversas e eu tão comovida, tão de volta a um mundo que apenas tive o privilégio de tocar, ao de leve, como quem toca na espuma que forma o dorso branco do mar. Queria ter abraçado cada um, como se cada um fosse “a minha” Maria Ondina Braga.

Abri o único livro que tenho autografado. Esse nunca o emprestei. Nunca o afastei, nem para a prateleira mais próxima. Sim. É verdade. A sua letra que reconheceria em qualquer canto dos continentes por onde andou e que disseram à sua alma viajante, ainda mais viajante do que o seu corpo franzino e elegante.  E voltei à carta.

Parei novamente de lhe escrever e lancei-me, obstinada, à procura de uma vaga fotografia que alguém nos tirou…encontrei-a. Mas as cartas são mais nítidas. As cartas da Maria Ondina Braga atravessaram a minha vida como um horizonte de navios silenciosos. Ficava numa alegria contida em algum canto a lê-las, mote para as conversas ao telefone. Posso dizer que em cada casa onde vivi recebi uma carta da Maria Ondina Braga. Primeiro, na casa dos meus pais, em Vila Nova de Famalicão, depois na casa de Vila Nova de Gaia, depois, aqui, no Porto, já na casa onde vivo actualmente. Num postal, de 22 de Dezembro de 1998, dizia-me no P.S – “Acabou de sair o meu romance na 1ª pessoa: Vidas Vencidas”. Corri a comprá-lo e a lê-lo e a sublinhá-lo. A lápis.

Há muito mais porquês. Mas assim, dito isto, talvez se compreenda a minha emoção e a minha gratidão pelo que está a acontecer em volta deste centenário de Maria Ondina Braga. Eu sentia, eu sinto uma afinidade muito grande com o seu modo de ser. Com o seu modo tão sui generis de escrever; além de que me encontrava amiúde neste ou naquele reparo; na sua mundividência. E sim, Macau, sempre Macau. E a desilusão comum com a opacidade do rio das Pérolas.

Amanhã é o último dia para visitar a exposição «Eu Vim paraVer Terra: Maria Ondina Braga, um olhar nómada» patente na Galeria do Paço, em Braga. Mas para comprar o I Volume das «Obras Completas de Maria Ondina Braga», editado pela Imprensa Nacional, vamos sempre a tempo. Quem ainda não leu, procure ler, conhecer a obra de uma escritora rara.

Eu sinto-me apenas uma leitora privilegiada, uma admiradora de Maria Ondina Braga. Desde os anos 90 que a leio e continuarei a ler e a reler. Que bom, agora, poder voltar a comprar os seus livros - todos esgotados no mercado editorial português e a oferecê-los.

Como disseram, após o documentário, a Professora Isabel Cristina Pinto Mateus e o Professor José Cândido de Oliveira Martins, a melhor forma de a homenagearmos é lermos a sua obra. Não conheço pessoalmente estes académicos, mas sinto uma gratidão infinita por nos ajudarem a desvendar, por darem a conhecer a muitos de nós esta escritora extraordinária. Quem não conhece, não hesite em procurar esta edição da Imprensa Nacional. Encontrará um olhar sóbrio, íntimo, distinto, viador…mas que, no entanto, permanece. Permanecerá. MDV

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